quinta-feira, 15 de março de 2018


“Ixi... já foi!” Como a ejaculação precoce pode afetar na qualidade de vida.

A ejaculação precoce (EP) é a disfunção sexual masculina mais frequente, ocorrendo em cerca de 20 a 30% dos homens em algum período de sua vida sendo mais frequente em jovens (Francischi, 2011; Abdo, Oliveira Jr., Moreira e Fittipaldi, 2002). Ela é definida como “a persistente ou recorrente ejaculação com estimulação sexual mínima, antes, durante ou logo após a penetração e antes que o sujeito o deseje, causando mal estar acentuado ou dificuldades interpessoais” (APA, 2000, p. 552).
Muitos pesquisadores sugerem vários tipos de ejaculação precoce. Ela pode ser primária (ao longo da vida), o que quer dizer que ela ocorre desde o período que se iniciou a vida sexual. Ou, ela pode ser secundária, aparecendo após o inicio da vida sexual (APA, 2000).
Tem se notado que há relação entre a satisfação sexual e a ejaculação precoce (Francischi, 2011). Os tratamentos são diversos e podem ser desde psicoterapia, terapias tópicas com uso de cremes e terapia medicamentosa, com a utilização de remédios (Francischi, 2011).
A ejaculação precoce é uma disfunção que afeta homens de todas as idades e tem efeitos tanto sobre a qualidade de vida do homem quanto de sua parceira (Francischi, 2011).
A EP está associada muitas vezes a uma gama de “efeitos psicológicos negativos, incluindo ansiedade, depressão e angústia, quer no homem, quer na sua parceira/o. O sofrimento interpessoal resultante da EP pode afetar a qualidade de vida dos homens, a sua relação com parceiros/as, a sua autoestima e autoconfiança” (Oliveira et.al, 2013).
Montorsi (2005) aponta que a ansiedade desempenha um importante papel na EP, tendo sido descrita pelos pacientes, diversas vezes como coexistente com EP (Oliveira et.al., 2013)
Em um estudo realizado por Oliveira e outros (2013) trouxe vários fatores de caráter psicossocial, sendo que os mais apontados foram a ansiedade e o medo, crenças baseadas em princípios religiosos, baixa autoestima e imagem corporal, histórias de abuso sexual e dificuldades de relacionamento interpessoal.
“Na EP, além da ansiedade, a insegurança, medo de fracasso, depressão, estresse, cansaço e problemas com a parceira podem estar associados a esta disfunção sexual, interferindo no controle do processo ejaculatório” (Oliveira et.al., 2013, p. 8).
Não é apenas na EP que surgem efeitos negativos, outras disfunções sexuais como a disfunção erétil também acarretam efeitos negativos sobre a autoimagem, perda de confiança, estresse e depressão (Galati, 2014).
Muitas vezes, os homens que sofrem de ejaculação precoce temem falar sobre o assunto com outras pessoas. Estamos numa sociedade machista e o homem tem que ser a todo momento viril, potente, não podendo demonstrar fraquezas e tendo que estar sempre pronto. Essa exigência social faz com que o homem se exija cada vez mais e crie expectativas muito grandes.
O mais importante é reconhecer que há uma dificuldade e procurar ajuda, além de entender que, após várias experiências sexuais negativas, frustrações e cobranças de parceiro (a) mesmo que veladas podem gerar receios sobre as próximas relações sexuais e uma diminuição acentuada do desejo sexual, acarretando na qualidade de vida do homem.

Bibliografia
Abdo, C. H. N.; Oliveira Jr., W. M.; Moreira, E.D.; Fittipaldi, J.A.S.(2002). Perfil sexual da população brasileira: resultados do estudo do comportamento sexual (ECOS) do brasileiro. Rev. Bras. Med., v. 59, n. 4, p. 250-257.
American Psychiatric Association (2000). DSM-IV-TR: Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais, 4ed. Lisboa: Climepsi Editores.
Francischi, F. B. de (2011). Ejaculação precoce: existe terapia suficiente? São Paulo: Rev. Einstein, v.9, n.4.
Oliveira, F.; Dias, S.; Neves, S; Saldanha, S. (2013).  Ejaculação prematura. Psicologia.pt.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Cutting ou automutilação: o sofrimento sentido na pele

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O cutting é um comportamento conhecido como automutilação. Ele pode se apresentar de diversas formas, desde lesões leves como “arranhar a pele com as unhas ou se queimar com pontas de cigarro, passando por formas moderadas, no qual se faz cortes superficiais nos braços ou atingir formas mais graves como a autoenucleação dos olhos e a autocastração.” (p. 258, Vieira, Pires, Pires, 2016).
Há muitos fatores desencadeantes da automutilação, entre eles os traumas familiares, como a separação dos pais, abandono, angústia, tristeza, alegria, insônia, ansiedade, medo, frustração, sensação de culpa, confusão mental, alucinações, depressão, irritação.
O cutting funcionaria para amenizar a dor emocional, pois este comportamento traz tranquilidade psíquica para suportar a confusão mental ou sofrimento.
Em um estudo de Vieira, Pires e Pires (2016) com pessoas que se auto-mutilavam, a maior parte dos entrevistados relatou ficar aliviado e encontrar satisfação e prazer após a auto-mutilação.
Quanto ao momento do dia em que ocorre a mutilação, a maioria respondeu no período da noite (p. 258, Vieira, Pires, Pires, 2016).
A tristeza foi a principal motivadora da automutilação. A culpa e o desejo de punir a si próprio foram causas desencadeantes da automutilação. (p. 259, Vieira, Pires, Pires, 2016).
Castro (2002) citado por Duque e Neves (2004) ”foca ainda a tendência para evitar os contatos sociais e uma hipersensibilidade à rejeição, dando especial ênfase ao fator solidão”.
Quando recebo uma pessoa no consultório que relata a mutilação, penso em imediato o quanto essa pessoa sofre, ou seja, precisamos nos atentar ao que ela está querendo nos dizer quando se corta e o que ela nos pede. Como psicólogos, precisamos nos debruçar ao seu lado e entender que o sofrimento psíquico é tamanho que ela precisa de um sofrimento físico muito maior para que possa esquecer pelo menos por um momento a dor psíquica. 
Os pais ou cuidadores precisam buscar a compreensão deste tipo de comportamento e não dar broncas, criticar ou fingir que não passa de um problema da adolescência. Precisam se atentar a esse comportamento do adolescente e procurar ajuda.
O mais importante é reconhecer que a automutilação precisa de atenção e cuidado já que trata-se de uma expressão de sofrimento. Nesse casos, a busca do tratamento psicológico é essencial.



Bibliografia
Duque, A. F.; Neves, P. G. (2004). Auto-mutilação em meio prisional: avaliação das perturbações da personalidade. São Paulo: Rev. Psicologia, v. 5, n.2.

Vieira, M. G.; Pires, M.H.R.; Pires, O. C. (2016). Automutilação: intensidade dolorosa, fatores desencadeantes e gratificantes. São Paulo: Rev. Dor, v. 17, n.4.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Perda gestacional

Perda gestacional


A perda gestacional é um problema que ocorre em até 15% das gestações, mas é pouco falado, podendo desencadear até transtornos psiquicos.
A literatura apresenta várias dificuldades no processo de luto do aborto espontâneo, entre elas: ausência de uma memória concreta do feto, sentimento de culpa da mulher e risco de transtornos psicológicos (BOYCE, CONDON, ELLWOOD, 2002) como a depressão, que segundo Veiga (2009) é o prevalente nesta situação.
            É necessário reconhecer a perda gestacional como sendo algo doloroso para a família e para a mulher.
            O modo como cada mulher sente estar dor é um processo individualizado, porém há certos sentimentos que são recorrentes neste caso, como a culpa e a vergonha.
            A mulher se vê sozinha diante de suas dúvidas, temores e lamentos.
Segundo Benute et. al. (2009), em estudo com mulheres que realizaram abortamento espontâneo ou provocado, a mulher faz um movimento para buscar responsáveis a fim de não lidar com a angústia vivida pelo abortamento e, se ela consegue achar um culpado, sua angústia é projetada no outro, impossibilitando assim a reflexão e a elaboração do processo vivido. Porém, quando não é possível responsabilizar alguém, “a angústia gera conflito e este possibilita a compreensão e a integração do significado do abortamento” (p. 326).
De acordo com Duarte e Turato (2009) é comum para a mulher a sensação de viver um sonho após a perda fetal, pois a mulher despersonaliza por não ter a criança em seus braços.
A perda gestacional representa uma ruptura na vida das mulheres, na qual há a reconstrução de sua identidade, fazendo com que a mulher tenha que lidar com sentimentos de impotência e incapacidade, causando grande impacto em sua feminilidade (QUAYLE, 1997; SANTOS, ROSENBURG, BURALLI, 2004; VEIGA, 2009).
A partir da perda fetal, segundo Bartilotti (1998) a mulher percebe a impossibilidade da maternidade e tem um sentimento de fracasso.

Referências Bibliográficas

Bartilotti, M. R. M. B. (1998). Obstetrícia e Ginecologia: urgências psicológicas. In: Angerami-Camon (Org.), V. A. Urgências psicológicas no Hospital (pp.193 - 206). São Paulo: Pioneira.
Boyce, P.; Condon, J. T.; Ellwood, D. A (2002). Pregnancy Loss: a major life event affecting emotional health and well- being. Medical Journals Association, 176.
Duarte, C. A. M.; Turato, E. R. (2009). Sentimentos presentes nas mulheres diante da perda fetal: uma revisão. Rev. Psicol. em estudo, 14 (3). Recuperado em 29 de outubro de 2010: http://www.scielo.br/pdf/pe/v14n3/v14n3a09.pdf.
Quayle, J. (1997). Óbito Fetal e Anomalias Fetais: repercussões emocionais maternas. In: ZUGAIB, M.; Tedesco, J. J.; Quayle, J. (orgs.) Obstetrícia Psicossomática (pp. 216 - 230). São Paulo: Atheneu.  
Santos, A. L. D.; Rosenburg, C. P.; Buralli, K. O. (2004). Histórias de perdas fetais contadas por mulheres: estudo de análise qualitativa. Rev. Saúde Pública, 38 (2). Recuperado em 29 de outubro de 2010: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v38n2/19788.pdf.
Veiga, D. S. (2009). Luto e aborto espontâneo. Rev. Virtual de Psicologia Hospitalar e da Saúde, 4 (8). Recuperado em 29 de outubro de 2010: http://susanaalamy.sites.uol.com.br/.

"Cabe ao terapeuta perceber que naquela árvore humana há alguém que embora esteja com os ramos ressecados ou no outono dos transtornos ansiosos e/ou afetivos, pode ser capaz de voltar a florescer, desde que esteja plantada em um solo fértil de orientação profissional e acolhimento familiar e social."
Braga, 2012. 




terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Gestalt-terapia e a busca pela integração

A Gestalt- terapia é uma abordagem de psicoterapia, que teve como seu maior divulgador Frederick Perls. Ela é o resultado de variadas teorias científicas, entre elas a psicologia da Gestalt.
Além da Psicologia da Gestalt, há a influência de conceitos filosóficos ocidentais e orientais.
A Gestalt busca o equilíbrio e nela, ninguém mais sabe do paciente do que ele mesmo. Nossa função como gestalt-terapeuta é observar e contar para o cliente o que ele está vendo.

Buscamos a integração, pois normalmente as pessoas se aliviam quando conseguem se integrar. À medida que consigo ser um, fico muito mais forte e tenho muito mais possibilidades de lidar com o mundo.  

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A sexualidade e o prazer

A sexualidade faz parte do ser humano e, por esse motivo, devemos nos atentar a ela. Atualmente, o sexo aparece muito na mídia, porém será que há realmente abertura para falar sobre sexualidade? E mais, como você enxerga o prazer? Este artigo tem o objetivo de trazer esta questão à tona para nos instigar a falar mais sobre sexualidade e prazer.
Em um estudo sobre sexualidade no Brasil, Abdo (2004) demonstra que dificuldades sexuais trazem comprometimentos na autoestima, na produtividade no trabalho, no relacionamento familiar e social além das próprias dificuldades sexuais.
Resolvi escrever sobre esse tema, pois ouvi muito em consultório sobre o como é difícil falar sobre sexualidade. Adolescentes e adultos demonstram vergonha e medo de falar.
Apesar de ser um dos aspectos de nossa personalidade, a sexualidade é relegada ao último plano.  Agora pense: será que você deixa sua sexualidade em último plano? Será que você sente prazer?
Se formos pensar numa resposta sexual saudável teoricamente, pensamos que ela é um conjunto de quatro etapas: desejo, excitação, orgasmo e resolução. Na primeira etapa, ocorrem fantasias sexuais e o desejo pela atividade sexual. Logo após, há a fase de excitação com alterações corporais. Em seguida, há a terceira fase, a fase do orgasmo, na qual há a sensação de prazer máximo. Enfim, há a quarta fase, em que a tensão sexual diminui e abre espaço para uma sensação de relaxamento e bem-estar, o prazer.
Mas e o que é prazer?  
Prazer é um “sentimento agradável que alguma coisa faz nascer em nós”.
Para ter prazer sexual, eu preciso estar focado no presente e entregar-me às sensações, sentimentos e fantasias do momento.
Porém, em um mundo em que as relações estão tão liquidas, ou seja, rápidas, buscamos o prazer imediato; buscamos relações que nos proporcionem o prazer imediato. Mas, o que acontece depois? 
Vivemos em um mundo em que as pessoas vivem de “amor líquido”, de relações instantâneas assim como o macarrão, em que é mais rápido e mais fácil. O que atrai no consumismo é a facilidade e a rapidez, e assim não conseguimos nos entregar.
Em uma relação rápida, sem intimidade, há entrega?
Como ter um prazer sexual intenso se para o prazer sexual, eu preciso de tempo, intimidade, entrega?
As pessoas demonstram não se satisfazer mais com objetos materiais que compram, como celulares, computadores, sempre querendo alcançar algo melhor, diferente, mais atual. Será que na relação sexual isso também não acontece?
Percebo que hoje em dia, homens e mulheres buscam cada vez mais prazer sexual com diferentes pessoas, em diferentes lugares, posições, momentos, mas será que é isso o que elas precisam?
Ou pessoas que evitam uma intimidade e, por esse motivo, acabam se relacionando sexualmente com diversas pessoas para não se apegar a nenhuma.
Agora, pergunte-se: Será que o que busco com o sexo é o que o sexo pode me proporcionar? E será que realmente me entrego e quero esta relação?

Referências Bibliográficas

Abdo, C. H. (2004). Estudo da vida sexual do brasileiro. São Paulo: Editora Cialis.